Kristen Welker.- Presidente Díaz-Canel, bem-vindo a Meet the Press.
Miguel M. Díaz-Canel.- Muito obrigado; obrigado a vocês pela oportunidade e bem haja por estarem em Cuba.
Kristen Welker.- Obrigada por convidar-nos ao seu belo país, é uma honra.
Miguel M. Díaz-Canel.- Para nós é um prazer que vocês cá estejam.
Kristen Welker.- Obrigada, muito agradecida.
Gostaria de começar com o presidente Trump. Ele disse que tinha planos de tomar Cuba dalguma forma. Ele disse: Acho que posso fazer o que quiser com Cuba. O senhor leva a sério as ameaças de Trump?
Miguel M. Díaz-Canel.- Acho que nos últimos dias foram ditas muitas coisas não apenas pelo Presidente, mas também por outros funcionários do Governo dos Estados Unidos da América, que realmente denotam uma linguagem, uma retórica agressiva para com Cuba.
É preciso conhecer a história do nosso país. O nosso país é um país que na sua identidade tem bem enraizados os valores da soberania e da independência. Durante 150 anos Cuba lutou, primeiro para libertar-se da colónia e depois da neocolónia. E com a Revolução Cubana, com a sua vitória em janeiro de 1959 foi apagado todo um grupo de dependências, foi apagado o avassalamento, a subordinação a uma potência estrangeira, e trouxe todo um grupo de consequências para o país de benefício, às quais o povo cubano não está disposto a renunciar.
Um dois generais mais brilhantes das nossas guerras de independência, Antonio Maceo, disse: Quem tente apoderar-se de Cuba só recolherá a poeira do seu solo anegado em sangue, se não perece na contenda.
Somos um país de paz. Não promovemos a guerra, não gostamos da guerra, propiciamos a solidariedade, a cooperação entre os povos, mas estamos dispostos a defender essa paz que queremos; portanto, não nos intimidamos, e não queremos que nos prenda nem a surpresa nem a derrota. Essa é uma das interpretações que podem ser dadas a essa ameaça e qual é a posição de Cuba.
A outra interpretação que lhe podemos dar é quando falam de que Cuba cairá por si própria, e tentam nos colocar o rótulo de Estado falido ou de país que vai colapsar, o que é negado pela realidade: como um país como este em 67 anos tem suportado todo tipo de pressões, de agressões, e inclusive, durante mais de sessenta anos, o bloqueio mais prolongado da história, que é um bloqueio criminoso, genocida. Há muito de que falar relativamente a esses temas, mas digo-lhe que o povo cubano, a Revolução Cubana estão dispostos a defender-se.
Kristen Welker.- Passamos à próxima pergunta.
O presidente Trump deseja tomar Cuba como tem feito com o presidente Maduro na Venezuela, como tem feito no Irão onde matou o Líder Supremo. O senhor poderia ser arrestado ou assassinado pelo Governo dos Estados Unidos? O que acha disso?
Miguel M. Díaz-Canel.- É uma pergunta muito interessante. Não gosto de que sejam feitos paralelismos entre Cuba e outras nações, porque temos uma história própria, movemo-nos numa circunstância própria, e isso também é desconhecer um pouco a nossa história, a fortaleza da nossa unidade e a fortaleza das nossas instituições.
Os que assumimos responsabilidades dentro da Revolução temos um compromisso com a Revolução, sobre tudo com o nosso heroico povo. E nesse sentido de responsabilidade está incluída a convicção de que estamos dispostos a dar a vida pela Revolução, pela causa que defendemos. Portanto, para mim isso não é uma preocupação.
Se chegasse o momento, não acho que exista justificação para que os Estados Unidos provoquem uma agressão a Cuba ou para que os Estados Unidos tentem dar um golpe cirúrgico ou o sequestro de um presidente em Cuba. Se acontecesse, haverá combate, haverá luta. Iremos nos defender, e se nos coube morrer, morreremos, porque como diz o nosso Hino Nacional: “Morrer pela Pátria é viver”.
Mas aí confunde-se uma coisa e é o facto de que sempre se personaliza a direção da Revolução Cubana com uma pessoa. Em um momento foi personificada com o Comandante-em-Chefe, em outro momento com o General de Exército, agora tentam personifica-la comigo; e é que nos temos uma direção coletiva em que existe uma unidade, uma coesão, uma unidade ideológica também, e existe uma disciplina revolucionária. Portanto, eliminar uma pessoa dentro da estrutura de direção da Revolução não resolve problema algum, antes pelo contrário, existem centenas de pessoas que estão em condições de ocupar essa responsabilidade e de maneira coletiva decidir. E estamos preparados para encarar qualquer tipo de situação.
Kristen Welker.- O que o senhor refere tem muita força, porém sente temor por si próprio, pela sua família? O senhor está preparado, como bem disse, para fazer o último sacrifício se fosse atacado?
Miguel M. Díaz-Canel.- Não sinto temor, estou disposto a dar a vida pela Revolução. Naturalmente, não gostaria que essa fosse a atitude do Governo dos Estados Unidos. Não acho que o povo norte-americano, que é um povo sensível, permitiria ou gostaria que o seu país, que o seu Governo invada uma pequena ilha que não representa preocupação alguma em matéria de segurança nacional para o Governo dos Estados Unidos da América; uma ilha que deseja a paz, uma ilha que deseja dialogar, uma ilha onde o seu povo deseja ter uma relação direta com o povo norte-americano, que gostaria disso.
Aliás, qual seria a justificação para fazer isso? Mas, também, uma agressão a Cuba teria custos, teria custos para ambos os países em perdas de vidas humanas desnecessariamente, que podem ser evitadas; teria custos materiais; afetaria a segurança e a estabilidade dos Estados Unidos, de Cuba e da região.
Acho que as coisas devem ser vistas com muita responsabilidade, de quando se toma a decisão sobre um facto dessa magnitude. E, sobre tudo, quando antes de tomar essa decisão que é totalmente ilógica e irracional existe uma lógica, que é mais justa, que é a de dialogar, a de discutir, a de debater e a de tentar chegar a acordos que nos afastem da confrontação.
Kristen Welker.- Cuba está ativamente preparando-se perante a possibilidade de um ataque por parte dos Estados Unidos da América?
Miguel M. Díaz-Canel.- Veja, como sempre referi em outros encontros, em outras entrevistas, também quando falamos ao povo cubano, é evidente que existe uma ameaça, está na retórica do Governo dos Estados Unidos. Cuba não fez nada que ofenda os Estados Unidos. Cuba não disse em momento algum que irá agredir os Estados Unidos, nem imiscuir-se nos assuntos internos dos Estados Unidos. Contudo, constantemente se refere que Cuba é a próxima, que Cuba será agredida, que há saídas para Cuba, que vão tomar Cuba. Portanto, isso, desde a posição de responsabilidade na direção do país é uma alerta e temos que responsavelmente proteger o nosso povo, proteger o nosso projeto, proteger o nosso país. Portanto, preparamo-nos sim para a defesa.
Agora, qual é o conceito da nossa preparação para a defesa? Temos uma doutrina de defesa que é totalmente defensiva, não é agressiva, não representa um perigo para ninguém, é simplesmente uma doutrina que é conhecida como Guerra de Todo o Povo, que foi construída coletivamente com a experiência da nossa história, e se terminou de conceber, terminou-se de estruturar precisamente em uma etapa bem difícil da nossa história em que estávamos muito ameaçados também pelo Governo dos Estados Unidos da América. E está baseada na participação popular: cada cubana e cada cubano tem uma missão, tem um propósito, tem um objetivo que defender, tem um lugar e uma posição que ocupar na defesa. E é feita na base da participação popular, da participação voluntária, e, logicamente, abrange a preparação para a defesa de todos os patamares e de todos os elos que conformam a nossa defesa territorial; mas é um conceito totalmente defensivo e não agressivo. E, além disso, porque partimos também de um facto: que preparando-nos para defender-nos é a melhor maneira de evitar a guerra e é a melhor maneira de preservar a paz.
Dir-lhe-ia mais, acho que o que merece tanto o povo norte-americano quanto o povo cubano, na sua relação, não é uma agressão nem uma linguagem de guerra. O que merecem o povo norte-americano e o povo cubano é a paz, uma paz que nos permita ter um ambiente de confiança, de cooperação, de colaboração, também de solidariedade e, naturalmente, de entendimento.
Kristen Welker.- Acha que o exército cubano poderia ter sucesso num enfrentamento contra os Estados Unidos, caso aconteça?
Miguel M. Díaz-Canel.- Quando falamos na defesa de Cuba, falamos das nossas gloriosas Forças Armadas Revolucionárias, mas também do nosso povo, que está estruturado em diferentes degraus dessa defesa territorial. Sim, teríamos êxito; sim podemos ter êxito. Não há inimigo que não possa ser derrotado.
Kristen Welker.- Mas, contra os Estados Unidos, a maior potência do mundo?
Miguel M. Díaz-Canel.- Os Estados Unidos têm uma conceção de fazer a guerra. O nosso conceito de defesa territorial está na base de uma guerra irregular, assimétrica, onde poderiam ter êxitos em um determinado momento; mas seria para eles insustentável invadir e também ocupar o solo cubano, porque existe uma decisão, e essa decisão, essa convicção a remeto de novo à frase de Maceo: só recolherá a poeira do seu solo anegado em sangue, se não perece na contenda. E não é uma palavra de ordem, não é um slogan. Se agora saíres à rua e comentas ou mostras a primeira parte dessa frase a uma criança, a um idoso, a um cubano, a um jovem, a irá completar imediatamente, porque assim nos formamos, e isso está nos nossos sentimentos.
Reitero-te que não é o que desejamos. Não desejamos uma guerra, não desejamos um enfrentamento. Seria muito custoso para todos.
Kristen Welker.- Bem, vou perguntar-lhe sobre este momento extraordinário.
Os Estados Unidos têm suspendido os fornecimentos de combustível a Cuba; mas Rússia os tem reativado. Acha que os russos obtiveram uma licença para ajudar Cuba? Como funcionou isso?
Miguel M. Díaz-Canel.- Acho que nunca um feito tão comum, como pode ser o comércio entre dois países, fosse tão acompanhado pela imprensa e pela população, em diferentes cantos do mundo, como a chegada do navio russo com combustível, que veio sob o conceito de ajuda humanitária. Ou seja, não foi uma relação comercial.
Julgo que Cuba tem o direito, como qualquer país, de importar petróleo. E todos os países também têm o direito de exportar petróleo a Cuba. Portanto, é muito injusto este bloqueio energético que recrudesce ainda mais o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba. Ou seja, que ter declarado o bloqueio energético a Cuba demonstra mais uma vez que existe toda uma agressão multidimensional por parte do Governo dos Estados Unidos contra Cuba. Com uma guerra económica que já tem 67 anos, com um bloqueio que já dura mais de 60 anos, com um bloqueio que em 2019 com a primeira administração Trump foi reforçado, que foi mantido pela administração Biden em condições inclusive de COVID-19, e que agora, novamente, tem uma expressão de máxima pressão que provoca danos devastadores na população cubana com esse bloqueio energético.
A Federação de Rússia conseguiu enviar esse navio sob o conceito de ajuda humanitária. Os Estados Unidos persistem em manter o bloqueio energético, portanto, não temos a certeza de quando possa entrar outro navio com petróleo para Cuba, quando nos corresponde o direito de poder consegui-lo. E esse navio que chegou também não é para ter falsas expectativas, embora é uma ajuda importante em um momento como este, que reconhecemos, mas só cobre a terceira parte da demanda de combustível de um mês em Cuba. Ou seja, agora também não podemos acreditar que isso já salvou a situação.
É um crude que agora temos que refinar, que temos que distribuir por todo o país, que vamos dedicar uma parte importante a aproveitar uma capacidade de geração elétrica de mais de 1 200 megawatts que tem estado inutilizada em quatro meses e nos poderia dar uma melhor situação no fornecimento de energia, e também para apoiar algumas atividades da economia.
Kristen Welker.- Quanto tempo vocês conseguem sobreviver até ao próximo envio de petróleo da Rússia?
Miguel M. Díaz-Canel.- É uma pergunta bem interessante e deve ser respondida em um momento bem difícil. Nenhum país no mundo pode desenvolver uma economia que avance, próspera, sem combustível. Por isso digo-lhe que existe um elemento de perversidade, de maldade, quando uma potência que tem um papel de agressora submete a uma situação como esta a uma pequena nação que está a ser constantemente agredida.
Mas não ficamos de braços cruzados. A que temos apostado?, e temos toda uma Estratégia e um Programa de revitalização do tema energético no país: primeiro, a depender mais do que da importação, do crude nacional. Em Cuba temos jazigos de petróleo, não alcançam para cobrir todas as necessidades; mas podemos e de facto estamos a incrementar a produção de petróleo, estamos a explorar mais jazigos; estamos abertos para o investimento estrangeiro em Cuba em perfuração e exploração de furos de petróleo. Inclusive, seria uma oportunidade para empresários norte-americanos que pudessem também participar em Cuba em investimentos no tema energético. Acontece que o bloqueio é o que o impede, mas Cuba receberia empresas norte-americanas que desejassem participar no negócio energético em Cuba, sem nenhum tipo de preconceito. Essa é uma linha.
Por outra parte, temos recorrido à ciência e à inovação. Os nossos cientistas têm encontrado tecnologias, têm desenvolvido tecnologias para que esse crude cubano, que é muito pesado porque tem um alto teor de enxofre, possa ser refinado. Portanto, se aumentarmos a produção, poderíamos ter uma determinada disponibilidade, que não cobriria todas as nossas demandas; mas uma determinada disponibilidade, que não temos hoje, com produtos que sairiam da refinação desse crude cubano.
E por outro lado, temos desenvolvido toda uma estratégia de transição energética com o uso mais intensivo das fontes renováveis de energia e, logicamente, também com uma estratégia de eficiência energética. Tudo isso combinado levar-nos-á ou nos está a conduzir a uma situação diferente. Ainda é complexa, demora tempo, mas poderemos resistir.
Kristen Welker.- Porém, o que se pode dizer relativamente à fortaleça do regime cubano nestes momentos que precisa do apoio da Rússia para sobreviver?
Miguel M. Díaz-Canel.- Precisamos, antes de mais, do nosso próprio povo e das nossas próprias capacidades. Acho que o primeiro que se deve salientar é a criatividade com que o nosso povo tem enfrentado as adversidades impostas pelo bloqueio, o bloqueio recrudescido, e agora o bloqueio energético.
Sempre descrevo a atitude do nosso povo, do qual me sinto totalmente orgulhoso, porque constantemente está a dar lições de resistência, de que a sua atitude é de uma resistência criadora. O povo cubano não resiste aguentando, suportando e de maneira humilhada. Antes pelo contrário, resiste e cresce, é capaz de inovar, é capaz de criar, e com isso pode ultrapassar a adversidade. Portanto, é o povo, e a nossa fortaleza está no nosso povo e na unidade que temos com esse povo.
Agora, para nós, bem-vinda seja a ajuda da Rússia, a ajuda da China, a ajuda do Vietnam, a ajuda do México, a ajuda de outros países. Os Estados Unidos também poderiam ter outra visão de Cuba que não seja a do enfrentamento, a agressão e o bloqueio, e também poderia ajudar Cuba.
Acaso prejudica que Cuba se desenvolva?
Kristen Welker.- O presidente Trump diz que este é um país à beira do colapso.
Miguel M. Díaz-Canel.- É muito curioso, porque nas relações entre Cuba e os Estados Unidos, sobre tudo em momentos de tensão, recorre-se muito às construções mediáticas, às construções representativas de estereótipos, e inclusive, para a opinião pública mundial, quase impõem umas determinadas visões. E neste caso está a do colapso.
Eu perguntaria, que país no mundo seria capaz, como fez Cuba, como fez o povo cubano, de suportar 67 anos de agressão mantida, sustentada, da potência mais poderosa do mundo, com mais de 60 anos de bloqueio, com os últimos seis ou sete anos com bloqueio recrudescido, e agora com bloqueio energético, e que não colapsasse? Ainda não colapsamos, mantemos um país organizado, um país com harmonia.
Em 67 anos de Revolução temos alcançado muitos avanços no social; e às vezes somos criticados no económico, porém, resulta que tivemos que encarar uma economia de guerra, e no meio dessa economia de guerra nossa economia tem sido capaz de suportar e avançar em projetos sociais. Temos mais de 32 projetos sociais para atender vulnerabilidades, desigualdades. Sessenta e sete anos de Revolução permitiram que o país não colapsasse, e não vai colapsar!, e o país desenvolveu conquistas.
Temos um sistema universal de saúde, que chega a todos com saúde gratuita para toda a população. Temos um sistema de educação, desde o ensino geral até ao ensino universitário, que inclui a todos e também é gratuita. Temos avanços na cultura e no desporto, somos um dos países com melhor proporção de medalhas olímpicas por habitante. Desenvolvemos os recursos humanos, e também temos um potencial de força de trabalho qualificada, de cientistas. Desenvolvemos a ciência e a inovação. São conhecidos os avanços da biotecnologia e da indústria biofarmacêutica cubana. Conseguimos equidade, justiça, igualdade.
Temos uma sociedade onde se respira tranquilidade, uma sociedade segura; uma sociedade que não admite a corrupção, o narcotráfico, o crime organizado; uma sociedade que é capaz de oferecer solidariedade a outros povos a partir das suas potencialidades. E isso não pode ser visto como um colapso.
Tentam impor-nos a matriz do colapso quando por uma política agressiva, por uma política genocida de bloqueio, levam-nos a viver uma situação complexa. Estamos a viver uma situação complexa, o nosso povo vive coisas muito duras todos os dias, que estão no âmbito do nacional, mas o podemos levar ao âmbito do familiar. Mas o nosso país não está colapsado.
Kristen Welker.- Ninguém discutiria que o bloqueio ou o embargo teve impacto, mas discutamos uma coisa sobre a situação aqui em Cuba.
O povo de Cuba está a sofrer, tem escassez de energia, de alimentos. O senhor tem alguma responsabilidade pelo sofrimento que experimenta o povo nestes momentos? Como Presidente, sente-se responsável disso?
Miguel M. Díaz-Canel.- Vamos ver, o povo cubano está a sofrer. E esse sofrimento, como eu lhe disse, podemos vê-lo em dois âmbitos: no âmbito do nacional e no âmbito do familiar, porque tudo está na quotidianidade.
Agora, qual é a causa fundamental desse sofrimento? Foram acaso os erros que eu posso ter cometido, ou como lhe digo, de uma direção coletiva?
Kristen Welker.- Ou do Governo?
Miguel M. Díaz-Canel.- Ou do Governo.
Ou esse sofrimento é devido, antes de mais, à política de bloqueio recrudescida, mantida e sustentada pelos Estados Unidos? Acho que a resposta -e pode ser dada pelo povo, pela maioria do nosso povo– está nessa política de hostilidade permanente do Governo dos Estados Unidos da América.
Veja, a nível nacional: somos um país que depois do ano 2019, quando recrudesceram o bloqueio, quando a administração do Governo dos Estados Unidos aplicou 240 medidas que recrudesceram esse bloqueio e além disso nos incluiu numa lista espúria, onde Cuba é acusada de ser um país que alegadamente apoia o terrorismo, cortaram-nos todas as fontes de financiamento externo.
Não recebemos créditos de banco algum. Existe uma perseguição financeira e energética. A àquele que vem fazer uma operação comercial, financeira, bancária com Cuba, aplicam-lhe medidas coercivas, aplicam-lhe pressões. Isso mesmo acontece com os armadores, fazem-no com as agências petroleiras.
Pressionaram e tomaram medidas para cortar o turismo a Cuba. Por exemplo, um cidadão europeu dispõe de um visto que se chama visto ESTA para visitar os Estados Unidos; se esse cidadão europeu visitou Cuba como turista, os Estados Unidos automaticamente lhe retiram o visto ESTA. Ou seja, é todo um grupo de situações que não lhe são aplicadas a nenhum país no mundo.
Nós precisamos de financiamento para adquirir alimentos; para adquirir inputs para as nossas principais produções e serviços; para ter os medicamentos de que precisamos; para as reparações que precisamos fazer ao nosso sistema electro-energético nacional e à nossa planta industrial. Agora, como isso se reflete nestes momentos? No nosso povo.
Kristen Welker.- E mesmo assim o povo de Cuba diz que o senhor não só pode culpar os Estados Unidos, porque durante os últimos dez anos a economia veio em declínio. Tem milhares de pessoas que abandonaram o país.
Miguel M. Díaz-Canel.- Dize-te anteriormente, como se reflete isso hoje na vida familiar? Existe escassez de alimentos, tem escassez de medicamentos; as madrugadas se convertem em madrugadas laboriosas porque, quando levas 20 horas sem energia elétrica devido a um bloqueio, não pela incapacidade de um Governo, a essa hora tens que fazer as tarefas do lar.
Kristen Welker.- Mas isso foi antes do bloqueio, a gente sofria antes do bloqueio.
Miguel M. Díaz-Canel.- Não, não, não, vou lhe explicar. Aí tem uma confusão de enfoque, aí tem uma confusão de enfoque!
Vínhamos sob as condições de bloqueio, mas o bloqueio é recrudescido e obtém uma qualidade diferente no segundo semestre do ano 2019 com essas 240 medidas e com a inclusão de Cuba numa lista de países que alegadamente apoiam o terrorismo. Portanto, tudo se intensificou.
Portanto, cá está o efeito que vinha acumulado do bloqueio, mais o efeito que adiciona o recrudescimento do bloqueio, mais o efeito que agora acumula também e potencia esse bloqueio energético. Digo-lhe responsavelmente, não é culpa do Governo cubano. Não é do Governo cubano!
Também criou mal-estar, porque viver os últimos 10 anos que foram vividos sob essas condições, que são extremas em comparação com outro momento… o povo cubano tem frustrações, o povo cubano tem incómodos, o povo cubano sofre situações muito complexas; mas a maioria do povo cubano não culpa o Governo. Também tem sido manipulado muito nas redes mediáticas, trata-se de desconhecer os efeitos que esse bloqueio teve em todos estes anos.
E vou lhe comentar exemplos concretos, para que veja a brutalidade desse bloqueio e o que tem implicado no povo cubano, e, não obstante, qual tem sido a resposta desse Governo que supostamente querem condenar como o culpado. E vou fazer referência aos momentos da COVID-19.
Quando a COVID-19, quando entrou a COVID-19 no nosso país, em um momento inicial constatamos que não iríamos ter acesso ao mercado de vacinas no mundo, que estava dominado pelas grandes transnacionais, e, portanto, com as restrições económicas que já estávamos sofrendo com o impacto do bloqueio recrudescido, não tínhamos o dinheiro necessário para adquirir essas vacinas. Portanto, para nós estava negada a adquisição de vacinas. Tivemos que recorrer à ciência cubana.
Este Governo condenado por alguns dedicou todos os seus esforços a proteger a vida das cubanas e dos cubanos. Recorremos aos nossos cientistas e os nossos cientistas, em pouco tempo, foram capazes de desenvolver vacinas cubanas que nos permitiram ter um dos níveis de melhor efeito no combate à COVID-19.
Os nossos indicadores de enfrentamento à COVID-19, em eficiência, são melhores que os dos Estados Unidos, que é uma potência que não está bloqueada por ninguém.
Depois tivemos uma crise por uma ruptura na planta de produção de oxigênio medicinal. O Governo dos Estados Unidos naquele momento negou que empresas nos pudessem vender oxigênio, o que é algo totalmente criminoso, e com solidariedade internacional e também com toda uma operação organizativa conseguimos ultrapassar esse momento.
E quando tivemos que aumentar as salas de cuidados intensivos, o Governo dos Estados Unidos proibiu a venda de ventiladores pulmonares a Cuba. Recorremos então aos jovens cientistas e esses cientistas desenvolveram os ventiladores pulmonares.
Agora, você sabe que para fazer um ventilador pulmonar são necessárias peças e componentes norte-americanos. O bloqueio impede que um equipamento que tenha mais de 10 % de componentes norte-americanos possa ser vendido a Cuba. Então, houve que sair para diferentes lugares a comprar uma pequena peça, para comprar um condutor, para comprar um servomotor para conseguir essas coisas. Essas coisas não foram impostas a ninguém no mundo.
O bloqueio é muito agressivo, é muito genocida, então é injusto, é injusto culpar um Governo que tudo o que tem é uma vocação pelo seu povo, por entregar-se ao seu povo, por procurar justiça social, por encontrar soluções, e em situações complexas as vamos encontrando, para ser culpado desses males.
Acho que o Governo dos Estados Unidos devia rever quão cruel tem sido para com Cuba e para com esse povo cubano. E que não venha apresentar-se como salvador da situação cubana, não tem esse direito, não tem esse direito, nem tem essa moral!
Kristen Welker.- Mas, em termos do que o povo cubano está a experimentar, com os nossos próprios olhos o vimos, tem pessoas que estão a sofrer nas ruas de Havana, a cidade capital Já não é hora de que Cuba assuma a responsabilidade, que se veja no espelho e mude o sistema económico de Cuba em prol das pessoas que estão a sofrer?
Miguel M. Díaz-Canel.- Sempre fazemos análises muito autocríticas das nossas realidades e constantemente estamos tentando transformar, revolucionar o que fazemos para procurar aperfeiçoamento, mas não tem a ver com o sistema político.
O nosso sistema político não é o que abraça essa impossibilidade de avançar. Reitero-lhe que o responsável é o bloqueio que tem exercido o Governo dos Estados Unidos da América. Esse mesmo povo que hoje sofre essas situações e que uma parte importante compreende quem é o verdadeiro culpado, é o povo que tem aprovado em vários exercícios de consulta popular e de referendo o sistema político que defendemos.
O nosso sistema político está em função das pessoas, está em função da justiça social, está em função de que todos avancemos. E parece que incomoda a outros no mundo pelo que pudesse representar, porque é um sistema para nós, não é um sistema que desejamos impor a alguém, e então o bloqueiam dessa maneira; porque, repara, não apenas estamos a falar de um bloqueio, é que estamos a falar de um bloqueio que é inusual, tem sido o mais prolongado na história da humanidade, o mais severo.
Um bloqueio que, além disso, não é apenas contra o povo cubano, é contra o povo norte-americano e, também, foi internacionalizado. Os empresários norte-americanos não podem investir em Cuba, por que? Os cidadãos norte-americanos não podem visitar Cuba livremente, por que? Os cidadãos de outros países, os empresários de outros países são submetidos também a sanções.
Kristen Welker.- Mas vocês podem comerciar com outros países.
Miguel M. Díaz-Canel.- Podemos comerciar, com muitas limitações, com muitas limitações!, porque as leis do bloqueio foram internacionalizadas quando foi aplicado o Título III da Lei Helms-Burton.
É preciso procurar muito, é preciso documentar-se muito, porque a narrativa que vigora na média e as narrativas que existem nas redes sociais a promover o ódio e a confundir, não são realistas. Acho que a isso temos que ter também uma mirada crítica. E nós continuamos a ter disposição no nosso Governo em conjunto com o nosso povo para transforma-lo e para avançar, inclusive para ultrapassar essas situações.
Kristen Welker.- Falemos sobre o futuro.
A China e o Vietnam abraçaram o sistema unipartidário e fizeram mudanças. Por que Cuba não pode fazer o mesmo?
Miguel M. Díaz-Canel.- A China e o Vietnam são países que constroem o socialismo, como Cuba.
É bom sublinhar que a China e o Vietnam –tenho estudado muito as reformas da China e do Vietnam e as tomamos como referente para Cuba– em um momento também tiveram as consequências de medidas coercivas, de sanções por parte dos Estados Unidos e estiveram bloqueados; bloqueios que duraram menos tempo, aproximadamente uma década. Quando saíram desses bloqueios tiveram toda a possibilidade então de desenvolver as suas capacidades de construção socialista. Aplicaram um grupo de reformas e com essas reformas têm demonstrado que o socialismo, com um único partido à frente, resulta viável e consegue demonstrar importantes desenvolvimentos económicos, sociais, tecnológicos. Hoje a China é uma potência importante no mundo.
Temos um intercâmbio permanente, somos países irmãos, os nossos partidos têm uma relação interpartidária profunda, e intercambiamos constantemente sobre os nossos processos. Também acontece que Cuba tem as suas peculiaridades.
Cuba é um estado insular, Cuba é um país a 90 milhas dos Estados Unidos. Cuba tem sido um país agredido, que ainda é vítima de um bloqueio, com mais de sessenta anos de bloqueio, como eu lhe disse; portanto, não temos podido construir o que temos sonhado nem o que temos querido ser. Temos muitas coisas pendentes porque o bloqueio o tem impedido, embora existam pessoas que o não entendam.
Inclusive, dir-lhe-ia outra coisa, que consegui constatar muito agora quando fizemos a última viagem a China e ao Vietnam. Quando a gente estuda os momentos de reforma e os momentos em que a China e o Vietnam conseguiram potenciar-se mais, partiram de uma situação menos favorável em matéria de infra-estrutura, em matéria de desenvolvimento, que talvez os que tenha Cuba na atualidade. Então, seria preciso dizer para o Governo norte-americano: Tira o bloqueio e verás de que somos capazes, Tira o bloqueio e verás de que somos capazes!, para ver e Cuba, com todas essas potencialidades que tem, se bloqueada tem sido capaz de ter conquistas, o que não faria se não estivesse bloqueada; porque temos sido capazes até de dar solidariedade estando bloqueados.
Por que os Estados Unidos têm que gastar milhões? Se somos tão incapazes, se somos tão tolos como nos querem ver, se somos tão fechados, se somos tão poucos inovadores. Por que então se empenharam durante tantos anos em gastar milhões, que são milhões de dinheiros que dão os contribuintes, isto é, o povo norte-americano, para planos subversivos, para bloqueios, para esmagar a Revolução Cubana? Por que não nos deixam cair por nós próprios, se é o que eles acham? Ou, por que não estariam dispostos a apreciar que Cuba sem bloqueio seria capaz de ter níveis de desenvolvimento económico e social de um amplo impacto e demonstrar que outras soluções são possíveis no mundo, que outros modelos são possíveis no mundo?
Kristen Welker.- Falemos do futuro.
Houve conversações entre Cuba e os Estados Unidos. Acha possível que seja viável chegar a um acordo com o presidente Trump, dos Estados Unidos?
Miguel M. Díaz-Canel.- Julgo que podemos ter um enfoque que parte do que é possível e do que é difícil.
Acho que o diálogo e os acordos com o Governo dos Estados Unidos são possíveis, mas são difíceis.
Onde está a possibilidade? Cuba sempre teve uma disposição, em todos os anos da Revolução, uma posição histórica de ter uma relação civilizada como vizinhos com os Estados Unidos da América, que nos permita, em todo um grupo de áreas, termos cooperação, termos intercâmbio, termos uma relação normal. E sempre, o que temos solicitado é que essa relação deve ser construída desde uma posição de respeito, desde uma posição de igualdade, sem impor, sem condicionar; porque condicionar não conduz ao diálogo, impor não conduz à negociação.
Para que exista uma conversação, para que exista um diálogo, para que se possa chegar a um acordo de negociação, tem que haver disposição, tem que haver capacidade de dialogar e de escutar por ambas as partes, tem que haver respeito, tem que haver decência e tem que haver reconhecimento.
Portanto, existem todas as condições e todas as possibilidades, se ambas as partes estamos de acordo, em ter esse diálogo. Quais são as coisas que tornam difícil esse diálogo? Em primeiro lugar, nestes 67 anos a política dos Estados Unidos para com Cuba tem sido uma política totalmente hostil. Os Estados Unidos sempre têm assumido, como potência, a posição de agressora e Cuba teve que assumir a posição, como pequena ilha, de agredida.
Em vários momentos –e este é outro dos antecedentes que facilita que possa haver um diálogo– alcançaram-se acordos, houve conversações com diferentes administrações dos Estados Unidos e se chegou a compromissos. Cuba sempre tem cumprido os seus compromissos. Os Estados Unidos têm incumprido muitos desses compromissos.
Os Estados Unidos, por exemplo, nos momentos atuais estiveram em conversações com outros países e depois, no meio dessas conversações os agrediram. Então, tudo isso cria muita desconfiança.
E sabemos que nos Estados Unidos existem forças que, constantemente, cada vez que veem um momento em que existem possibilidades de conversar ou existem possibilidades de dialogar tentam boicotar essa negociação. Mas, insisto, confio em que podemos conversar com respeito, com decência; em que possamos encontrar, pela via do diálogo, solução para as nossas diferenças bilaterais; em que possamos encontrar áreas de cooperação nas quais possamos desenvolver projetos.
Existem muitos temas em que podemos trabalhar, estão os temas de combate ao narcotráfico, ao terrorismo, os temas migratórios, os temas de combate ao crime transnacional. Podemos avançar em negociações, podemos ter investimento e negócios de empresários norte-americanos em Cuba.
Existe uma comunidade cubana residente nos Estados Unidos à que temos também que propiciar-lhe facilidades tanto nos Estados Unidos quanto no nosso país; um povo norte-americano que poderia visitar Cuba. Podemos ter intercâmbio cultural, desportivo, de saúde. Tudo isso nos permitiria então construir espaços de entendimento, que nos afastem da confrontação, que garantam a paz e a segurança no solo de Cuba e dos Estados Unidos, mas também na área da América Latina e as Caraíbas. Esse é o futuro a que aspiramos, a termos uma relação de boa vizinhança, uma relação civilizada, independentemente das nossas diferenças ideológicas. Julgo que seria uma oportunidade, é o que merecem os nossos povos.
Vou lhe contar uma anedota.
Kristen Welker.- Informam-me que se nos acaba o tempo.
Miguel M. Díaz-Canel.- É uma pena, é uma pena!
Kristen Welker.- Por favor, deixem-nos terminar com as perguntas.
Miguel M. Díaz-Canel.- É uma pena que se nos acabe o tempo, porque temos muito que conversar. Portanto, proponho-te que em outro momento também possamos conversar. Mas veja, vou lhe contar duas anedotas.
Kristen Welker.- Está bem. Temos muitas outras perguntas. Queria dar-lhe o tempo e dar-lhe a resposta para que a escutem o povo cubano e o dos Estados Unidos.
Miguel M. Díaz-Canel.- Concordo.
Kristen Welker.- Está bem.
Miguel M. Díaz-Canel.- Por exemplo, são duas anedotas que te mostram quanto poderíamos desfrutar ambos os povos se conseguíssemos chegar a acordos e pudéssemos chegar a realizações, a espaços que permitam tudo isso.
Uma entidade cubana de ciência, tecnologia e biotecnologia farmacêutica há anos está a realizar um ensaio clínico com uma prestigiosa entidade de câncer nos Estados Unidos. Um ensaio clínico sobre uma vacina cubana contra o câncer pulmonar. Esse ensaio clínico já tem quase uma década. É preciso dizer que os resultados desse ensaio clínico são sumamente encorajadores. Tanto a parte norte-americana quanto a parte cubana têm uma confiança tremenda no sucesso desse ensaio clínico e no que poderia representar para a saúde dos Estados Unidos e para a saúde de Cuba.
Agora, recentemente, todas as semanas tenho encontros com cientistas cubanos porque tentamos abordar desde a ciência e a inovação a solução aos problemas do país, e me apresentaram os resultados que também vem obtendo um ensaio clínico sobre um medicamento cubano, muito inovador, para combater o Alzheimer. Nesse ensaio clínico há uma colaboração com uma clínica de Colorado, nos Estados Unidos, donde vêm pacientes norte-americanos a receberem o tratamento em Cuba, depois voltam para os Estados Unidos e continuam o seu tratamento.
É preciso ver nos termos em que o Diretor dessa clínica, em Colorado, fala de como os seus pacientes têm melhorado e tiveram resultados superiores a qualquer um dos outros medicamentos. Então, não se pode privar com uma política de bloqueio, que responde a minorias, que responde a elites, a relação que poderiam ter os nossos dois povos. E é a isso que faço um apelo, a que haja compreensão, a que haja sensibilidade, a que vejamos oportunidades na nossa relação, e não incentivemos a confrontação, a guerra e a agressão.
Kristen Welker.- Gostaria de continuar a falar sobre o futuro das negociações. O senhor confia em que o presidente Trump chegue a um acordo?
Miguel M. Díaz-Canel.- Bom, se estamos em uma conversação é porque aspiramos a que possamos chegar a um acordo. E digo isto por esta circunstância, para chegar a um acordo depende da disposição das duas partes a encontrar essas áreas de colaboração e de cooperação; a construir esses espaços de entendimento, a abordar isso com sensibilidade, com responsabilidade e também com muita seriedade.
Kristen Welker.- Senhor Presidente, o senhor está em conversações diretas com o secretário de Estado, Marco Rubio? Tem confiança nele?
Miguel M. Díaz-Canel.- Estávamos em conversações e estaremos em conversações, desde que os Estados Unidos estejam dispostos, com o representante do Governo dos Estados Unidos que se decida por parte daquele país para ter as conversações connosco.
Os processos de conversação são processos complexos. São processos onde primeiro se estabelecem canais de diálogo; depois é preciso construir agendas que permitam debater e que permitam conciliar interesses comuns.
Kristen Welker.- Mas, você tem falado com o secretário Rubio?
Miguel M. Díaz-Canel.- Não, eu não falei com o secretário Rubio, não conheço o secretário Rubio.
Depois de construir agendas e debater, se existe disposição, se pode chegar aos acordos. Mas esses são processos que é preciso conduzir com muita sensibilidade, com muita responsabilidade, com muita decência e com muita discrição, para não criar falsas expectativas, para que a informação não seja manipulada, para que os propósitos não sejam manipulados. Portanto, prefiro não dar pormenores sobre esses temas.
Kristen Welker.- Falemos sobre algumas das demandas chaves dos Estados Unidos: o reconhecimento da imprensa livre, a libertação dos presos políticos, a celebração de eleições justas.
Miguel M. Díaz-Canel.- Por enquanto ninguém nos demandou esses pontos, e temos estabelecido que a ordem interna, a ordem constitucional cubana, o respeito ao nosso sistema político são temas que não fazem parte de uma negociação nem de uma discussão com os Estados Unidos.
E acho, Kristen, que é preciso ultrapassar toda uma parafernália que tem existido de conceitos acerca de temas sobre Cuba, sobre democracia, direitos humanos, se somos tirania ou ditadura ou não; liberdade de expressão, existência de sindicatos, nos quais há muita manipulação e há muito preconceito que acho que temos que ultrapassar, e levaria, não temos tempo agora, muito tempo, mas temos todos os argumentos para demonstrar quão democráticos somos; como é o sistema de eleições em Cuba, que é um sistema de eleições que vem da base; como exercemos o poder com o povo, como somos defensores dos direitos humanos, como não somos uma ditadura, teria que explica-lo em muito mais tempo e te peço que em outro momento possamos falar sobre essas coisas. Mas há muito prejuízo que é preciso ultrapassar e que é preciso eliminar.
Kristen Welker.- Mais duas perguntas.
Ainda há mais de 1 200 presos políticos em Cuba. Maykel Osorbo, que está preso e que ganhou dois Grammy latinos.
Miguel M. Díaz-Canel.- Este é outro dos temas nos quais também aparecem esses preconceitos. Fala-se de presos políticos em Cuba. Em Cuba, como mesmo você apontava que o povo vive uma situação difícil; em Cuba toda a gente não está a favor da Revolução, tem pessoas que não aceitam a Revolução, que todos os dias se manifestam de diferentes formas em contra da Revolução e não estão presas. Essa cápsula que têm criado, essa imagem de que em Cuba a todo aquele que fala em contra da Revolução é preso e é um preso político; é uma mentira, é uma calúnia e faz parte dessa fabricação para desprestigiar, para descolocar, para satanizar e para assassinar a reputação da Revolução Cubana.
Agora, o que acontece? Em Cuba, por exemplo, ocorrem manifestações, sobre tudo quando há apagões prolongados, quando há problemas de fornecimento. As pessoas quando se manifestam, o que fazem? Vão para as instituições do nosso Governo, às instituições do Estado, e aí trocam ideias com dirigentes que os atendem, explicam-lhes e os problemas são resolvidos ou são colocados os argumentos. Isso é um exercício totalmente democrático e ninguém vai preso por fazer isso.
Agora, muitas das vezes se confunde e se estimula que pessoas que têm uma determinada aversão ou um determinado descontentamento o promovam para que cometam atos vandálicos ou atos que alteram a nossa ordem constitucional, ou que alteram também a ordem interna, ou agridem a tranquilidade cidadã, inclusive, muitas vezes financiados por organizações terroristas; muitas vezes financiados pelos programas de agências do Governo norte-americano que estimulam a subversão contra Cuba; muitas vezes instruídos, inclusive, pela Embaixada dos Estados Unidos em Cuba. E essas pessoas, então, não estão presas por manifestar-se; estão presas, como o estariam em qualquer lugar do mundo que respeite a sua Constituição e que respeite os seus processos legais, por cometer atos vandálicos e atos que são condenáveis em qualquer lugar do mundo. Não há presos políticos em Cuba, garanto-lhe.
Kristen Welker.- Tenho de concluir a entrevista. Tenho de fazer-lhe esta última pergunta. Estaria disposto a demitir com tal de salvar Cuba, o povo de Cuba?
Miguel M. Díaz-Canel.- Você que é uma jornalista importante, reconhecida, já lhe fez essa pergunta a algum outro presidente no mundo?
Kristen Welker.- Caso o pedissem os Estados Unidos, porque é uma das condições que estão a impor os Estados Unidos da América.
Miguel M. Díaz-Canel.- Reitero-lhe, teria feito essa pergunta a outro presidente no mundo? Já fez essa pergunta a outro presidente? Poderias fazer essa pergunta a Trump?
Kristen Welker.- Eu faço perguntas bem difíceis para o presidente Trump.
Miguel M. Díaz-Canel.- É uma pergunta sua ou do Departamento de Estado ou do Governo dos Estados Unidos?
Kristen Welker.- A minha pergunta é, porque é uma das coisas que temos ouvido do Governo dos Estados Unidos. Se lhe fosse solicitado.
Miguel M. Díaz-Canel.- Pela sua sinceridade vou assumir que a faz precisamente por essas coisas.
Primeiro, em Cuba as pessoas que estão à frente e nas responsabilidades do Governo não as elege o Governo dos Estados Unidos nem as mandata o Governo dos Estados Unidos. Somos um Estado soberano, livre. Temos autodeterminação, temos independência e não nos submetemos a nenhum desígnio do Governo dos Estados Unidos.
Por outra parte, os dirigentes cubanos não chegamos porque representamos uma elite de poder. Poderias ver as minhas origens, onde nasci, no seio de que família nasci, que tenho feito na vida. É o povo que nos elege, embora haja uma matriz que tenta desconhecer isso.
Qualquer um de nós para ocupar uma responsabilidade tem que ser eleito na base, em um distrito eleitoral, por milhares de cubanos, e depois os cubanos que representam esses outros na Assembleia Nacional do Poder Popular elegem esses cargos em votação indireta, como é em outros países do mundo, como é em outros países do mundo! Temos um sistema também de eleições que é totalmente na base da participação popular.
Portanto, quando assumimos uma responsabilidade não o fazemos nem por uma ambição pessoal, nem por uma ambição corporativa, nem inclusive por uma posição de partido, porque o nosso Partido não é eleitoral. Fazemo-lo por um mandato do povo, e no conceito dos revolucionários não consta render-nos.
Se o povo cubano entende que sou incapaz, que não estou à sua altura, que o não represento, ele é quem tem que decidir se devo estar na direção, ou ocupando o cargo de Presidente ou não.
Além disso, lembrem que não podem focalizar apenas a direção do país, a direção da Revolução e a continuidade da Revolução em uma pessoa. Cá existe uma direção colegiada e é uma direção colegiada que tem um amplo vínculo com esse povo. Mas não são os Estados Unidos os que nos podem impor nem nos podem pedir uma mudança.
O Governo dos Estados Unidos, que tem conduzido essa política hostil contra Cuba, não tem moral para exigir nada a Cuba. Não tem moral, inclusive, para dizer que estão preocupados com a situação do povo cubano e que o Governo cubano é quem tem conduzido Cuba a essa situação quando eles têm toda essa responsabilidade.
Acho que o mais importante é que assumissem uma posição crítica, uma posição sincera, que levem em conta quanto tem custado o que têm feito em política para o povo de Cuba em sofrimento, em limitações; quanto têm privado o povo norte-americano de uma relação normal com Cuba e se disponham, como temos pedido, como temos solicitado e como temos interesse, a dialogar, a debater sobre qualquer tema, não condicionando, não exigindo mudanças do nosso sistema, como nós não exigiríamos mudanças do sistema norte-americano sobre o qual temos um sem-fim de dúvidas e um sem-fim de críticas, e nos foquemos naquilo que nos pode juntar, naquilo que nos pode facilitar espaços de entendimento, e uma vez mais, repito, para evitar a confrontação e ter um futuro para ambos os povos de beneficio, de relação, de amizade e também de solidariedade.
Kristen Welker.- Presidente Díaz-Canel, obrigada.
Miguel M. Díaz-Canel.- Muito obrigado a você, e por ter-nos dado essa oportunidade de falar para o povo norte-americano.
E ficam convidados permanentemente para poder falar sobre outros temas e com mais amplitude.
Kristen Welker.- Obrigada.
Miguel M. Díaz-Canel.- Obrigado a vocês.
Kristen Welker.- Oxalá possamos ter mais entrevistas para continuar a discussão.
Miguel M. Díaz-Canel.- É bem assim, é bem assim.
Kristen Welker.- É uma honra.
Miguel M. Díaz-Canel.- Obrigado a si.
Enlace da entrevista:
https://youtu.be/RLUUwP9XSfs?si=n14hQ-lO0urWM5Tw
(Cubaminrex – Presidência da República)
