Intervenção do ministro das Relações Exteriores da República de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, no Encontro Internacional de Solidariedade com Cuba "Por um mundo sem bloqueio: solidariedade ativa no Centenário de Fidel"

Intervenção do ministro das Relações Exteriores da República de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, no Encontro Internacional de Solidariedade com Cuba "Por um mundo sem bloqueio: solidariedade ativa no Centenário de Fidel"

 

Bom dia! 

Companheiro Primeiro Secretário do Comité Central do Partido Comunista de Cuba e Presidente da República, 

Companheiro Presidente da Assembleia Nacional do Poder Popular, 

Companheiro Primeiro Ministro, 

Companheiro Secretário de Organização do Partido Comunista de Cuba, 

Companheira Teresa Amarelle, Secretária-Geral da Federação de Mulheres Cubanas, 

Caras companheiras e companheiros: 

 

Obrigado. Profunda gratidão a todas e todos, e ao amplíssimo movimento internacional que vocês representam, pela sua persistente, infatigável e vitoriosa solidariedade com o povo cubano. 

A demonstração dada pelo povo cubano ontem, mais de 500 mil havaneses, e mais de 5 milhões de cubanos, que por todo o país, realizaram uma demonstração consciente de unidade, de resistência, de criação, de compromisso com a Revolução, e de disposição de defende-la com as ideias ou com as armas, tem sido um feito transcendente. Tem sido uma jornada histórica, vibrante, de que esperamos que o imperialismo estadunidense tenha tomado boa nota. 

Vivemos tempos particularmente perigosos para a humanidade e para Cuba.

Num cenário internacional crescentemente instável, normaliza-se o uso da força, fala-se da chamada paz com base na força. A proliferação das medidas coercivas unilaterais, as guerras cognitivas ou não convencionais, a ocupação de territórios, a conquista de recursos naturais, a inobservância e violação do direito internacional, a aplicação brutal de instrumentos de dominação, mais do que de hegemonia, voltam a colocar o mundo numa situação de crise multidimensional e ameaçam Cuba, que está no colimador, na berlinda do imperialismo. 

Vocês se lembrarão do infame Memorando do subsecretário Mallory. Foi a primeira formulação, classificada por muitos anos, do traçado e dos objetivos do bloqueio a Cuba. Provocar fome, desespero e o derrubamento do governo. É, até este minuto, a essência a política estadunidense contra Cuba.

O reforço do bloqueio nos últimos 10 anos teve obviamente impacto em matéria de consequências sociais e humanitárias e no nosso desempenho económico. Desde 2019, com a incorporação de 243 medidas coercivas adicionais, extremaram o empenho de privar Cuba dos fornecimentos, incluídos naquele verão de 2020, nomeadamente os fornecimentos de combustível. A aplicação cruel das medidas de bloqueio e o seu reforço no âmbito da saúde, o equipamento médico e os medicamentos, jamais poderá ser esquecido pelo nosso povo como um dos piores episódios na execução da política imperialista contra Cuba, com a negação de ventiladores pulmonares, a obstrução de balões de oxigênio medicinal durante a pandemia de COVID-19.

A 29 de janeiro deste ano, os Estados Unidos adotaram a medida adicional e extraordinária de ameaçar com represálias alfandegárias todo país desde cujo território, companhias, organizações de negócios, seja exportado combustível a Cuba. Trata-se, com efeito, de um bloqueio energético absoluto que se junta ao bloqueio económico recrudescido e à acumulação dos seus efeitos durante mais de 60 anos. 

É um acto de guerra. Equivale a um bloqueio naval, tipificado no direito internacional como um acto de guerra.

Quando foi aplicado o bloqueio naval contra a irmã República Bolivariana de Venezuela, logo o governo dos Estados Unidos mudou o nome, para evitar aparecer como um delinquente internacional, e começou a chamar-lhe de quarentena. Recordando aquela aplicada contra Cuba aquando da Crise de Outubro ou a Crise dos Mísseis.  

É um acto que provoca danos extraordinários a nossa população, a cada família cubana, e que provoca consequências também muito graves à nossa economia. De facto, começara a afetar-nos desde antes, quando mandos militares estadunidenses começaram a perseguir, intercetar e confiscar navios petroleiros estrangeiros nas Caraíbas, ou mais além.

Sabe-se que Cuba não pode produzir, por agora, todas as necessidades de crude ou combustível, que demanda a vida do povo ou a nossa economia. Precisa de fazer importações em exercício de um direito reconhecido internacionalmente, de liberdade de comércio e navegação. Quando o governo dos Estados Unidos persegue o combustível, não apenas trava um navio a um fornecedor, a uma companhia marítima, ou a uma companhia seguradora. Trava-se o transporte em Cuba, são atingidos os serviços médicos, são afetados os serviços de saúde, atinge-se a vida de milhões e milhões de pessoas, prejudicam-se as nossas crianças, os nossos idosos, os nossos doentes, e tenta-se plantar o desespero.

É um cenário inédito no mundo, em que uma superpotência abusa quotidianamente da capacidade de impor a quase todos os Estados a proibição de agir de maneira soberana, e no caso de Cuba, de exportar os seus próprios produtos nacionais ao país que desejar, ou aos seus cidadãos de visitar qualquer nação do planeta. 

Não é apenas um atentado criminoso contra Cuba, mas contra as prerrogativas soberanas de qualquer Estado. É um acto de intimidação inaceitável contra qualquer país.

As consequências não são maiores para Cuba como as que sofreria provavelmente a imensa maioria das nações, precisamente pela natureza socialista ordenada e centrada nos seres humanos e nas famílias, na justiça social da nossa economia. Mas o impacto é severo e vocês o viveram nos dias que têm estado na nossa Pátria. A pressão é notória e as sequelas para o povo, sofrem-se a diário. Não falamos de uma abstração, mas da vida quotidiana das pessoas. 

Nesse sentido, vocês com certeza também terão percebido, a forma em que as famílias cubanas se adaptam a essas circunstâncias críticas, a maneira em que o nosso povo, de maneira criativa, inovadora, resiliente, firme e ao mesmo tempo otimista e alegre, encara as consequências. 

Alguns questionam até quando Cuba poderá resistir o bloqueio energético, ou as condições atuais. A resposta foi dada ontem nas nossas praças e ruas em toda a nação.

A decisão do nosso povo de sobrepor-se e avançar é firme, inclusive nos piores cenários. Em Cuba produzimos cerca da metade do crude que consumimos. Já podemos refina-lo com nova tecnologia cubana.

Possuímos uma das maiores reservas do planeta de níquel e cobalto, que são minerais críticos. Temos suficientes terras cultiváveis. Dispomos de água, apesar da seca e das circunstâncias da mudança climática. Temos indústria e tecnologia inovadoras e competitivas como a bio-médico-farmacêutica. Porém o mais importante é o povo protagonista da Revolução cubana. 

O bloqueio não é a única forma de agressão, pois inclui a tolerância, a impunidade com que são organizados desde território estadunidense actos terroristas e violentos contra Cuba, de onde se incita quotidianamente à violência, à sedição.

É acompanhado também por um programa governamental e multimilionário no desdobramento de uma guerra cognitiva contra o povo cubano, encaminhado a desinformar, desorientar, desmobilizar, quebrar a identidade nacional, o espírito patriótico, atingir a sensibilidade cubana, prejudicar o sentido da dignidade, afetar a unidade monolítica do povo cubano em torno ao partido, à Revolução e à sua direção histórica e a atual, em torno ao General de Exército Raúl Castro Ruz e ao primeiro secretário e presidente Díaz-Canel. 

Agora a confrontação leva-se a cabo no terreno simbólico e digital. O colóquio internacional Pátria, recentemente celebrado em Cuba, tem dado fé dos avanços de uma plataforma de coordenação internacional com grandes potencialidades para a articulação na luta digital, na integração da soberania tecnológica, incluindo infra-estrutura, dados, algoritmos, geração de conteúdos e capacidade para a sua distribuição, formação especializada e capacidades operativas para a intervenção democrática, progressista, revolucionária e de esquerda no âmbito digital, para a luta contra a ditadura do algoritmo.

Neste mês de abril e nos dias à volta da comemoração da vitória, da primeira vitória militar de Cuba contra o imperialismo estadunidense, da primeira derrota militar dos Estados Unidos neste hemisfério, precisamente no dia 17 de abril, 18 milhões de pessoas participaram no diálogo digital sobre Cuba. 

Resultou significativa nesse dia a convergência de Girón, as agressões do governo dos Estados Unidos através dalgumas declarações dos seus responsáveis principais e a qualificação por líderes de esquerda do bloqueio como acto de genocídio. Cuba passou nesse momento, de um assunto bilateral com os Estados Unidos, ou seja, a um caso internacional de primeiro nível.

Segundo as redes, a opção militar contra Cuba, a ameaça de agressão militar direta estadunidense, deixa de ser um ruído especulativo e entra no debate institucional real no mundo. Matrizes importantes foram impostas, como em primeiro lugar, que o bloqueio petroleiro é um acto gravemente orientado contra os seres humanos, encaminhado a provocar danos humanitários, a criar males extremos a um povo inteiro, como um facto de castigo coletivo. 

Em segundo lugar, o desenvolvimento de uma frente multipolar de solidariedade internacional.

Em terceiro lugar, a menção de que Cuba é a próxima, Cuba is next; a escalada militar. 

Em quarto lugar, a manipulação no âmbito dos direitos humanos contra Cuba e os governos progressistas. 

Em quinto lugar, os efeitos de uma bem-sucedida e eficaz ofensiva comunicacional cubana, com peso inclusive no diálogo dentro dos Estados Unidos com relação ao nosso país e também atração mundial com relação às conversações ou intercâmbios entre Cuba e o governo dos Estados Unidos da América.

As duas matrizes mais frequentes são bloqueio e solidariedade, e reforçam a mesma narrativa. 

Cuba é um Estado assediado, Cuba é um Estado agredido, não é um Estado ineficaz. É o desmentido a uma das matrizes principais que o imperialismo tenta plantar nas consciências das pessoas. 

É verdade que temos iniciado um processo de intercâmbios com o governo dos Estados Unidos. Não é nada extraordinário. Fizemo-lo no passado praticamente com todos os governos estadunidenses, que se não me engano já são treze, desde o triunfo da Revolução.

Sempre, Fidel, Raúl, Díaz-Canel, a direção do partido, do Estado e do governo temos tido disposição ao diálogo respeitoso, sério e responsável para tentar resolver a nossa profunda diferença. Existem experiências anteriores, estamos dispostos a avançar por esse caminho. Tem temas bilaterais em que podemos intercambiar e nos quais seria conveniente encontrar uma solução para ambos os povos.

Não faz parte desse intercâmbio, o não faz de maneira alguma, a ordem política e económica de Cuba. Não faz parte das conversações com os Estados Unidos nenhum assunto interno do nosso povo nem da nossa revolução. 

Nunca discutiremos com os Estados Unidos os assuntos que competem apenas à soberania, à independência e à autodeterminação dos cubanos.

Posso garantir-lhes que continuamos e continuaremos a lutar, a sonhar, comprometidos com o melhoramento contínuo do nosso processo de construção socialista. Continuaremos a avançar no caminho de atingir a maior justiça social no maior grau possível, de protege-la, de defende-la ao máximo e de assegurar a sua sustentabilidade. 

Esta é a Revolução dos humildes, com os humildes e para os humildes.

É a Revolução socialista e anti-imperialista dos trabalhadores cubanos que saíram ontem às nossas ruas.

Sabemos que Cuba não está só, e vocês podem contar com uma profunda lealdade invariável e irrestrita, para além de qualquer risco dos cubanos, às causas justas do planeta, à luta anti-imperialista. 

Continuaremos a ser profundamente seguidores de Martí, sentindo que pátria é humanidade, e continuaremos a ser profundamente internacionalistas como Fidel e o Che até as últimas consequências.

No passado 8 de janeiro, em entrevista radial, o presidente dos Estados Unidos disse: "...bom, não acho que se possa exercer muita mais pressão do que entrar e arrasar com tudo". Perguntaram-lhe se aplicariam medidas adicionais de pressão económica contra Cuba. Reconheceu que tinham praticamente esgotado o seu arsenal e que o que lhes resta é entrar e arrasar com tudo..

Seria bom que o imperialismo estadunidense, o governo, a comunidade militar de inteligência, leiam bem, interpretem bem os sinais que dão o combate heroico e desigual dos cubanos a defender a soberania e a segurança do presidente da República Bolivariana de Venezuela; tombados heroicamente a combater contra o imperialismo. 

Interpretem bem a marcha do povo combatente no dia da agressão contra Venezuela; a homenagem multitudinária aos nossos mortos; os comícios recentes comemorando a vitória de Girón, os mais de 500 mil havaneses que lotaram a tribuna anti-imperialista José Martí ontem em Havana; os mais de 5,2 milhões de cubanos que fizeram a mesma coisa em todo o país.

Cuba seria um vespeiro, Cuba seria uma armadilha mortal, Cuba seria cenário da guerra de todo o povo se o imperialismo estadunidense ousasse atacar-nos.

Ontem à noite o presidente dos Estados Unidos disse, e abro citação: "...falando de um lugar chamado Cuba, do qual tomaremos o controlo quase de imediato", disse. 

"Agora Cuba tem problemas, terminaremos com um primeiro, ao regresso do Irão", -a nossa solidariedade com o Irão. Trump disse, "ao regresso do Irão faremos com que venha um dos nossos grandes, talvez o porta-aviões USS Abraham Lincoln, o maior do mundo. Vai parar a cerca de 100 jardas, a 90 metros da costa de Cuba e os cubanos vão dizer: "Muito obrigado, rendemo-nos."

Antes tinha emitido uma nova ordem executiva, reiterando a designação de Cuba como uma ameaça inusual e extraordinária para a segurança nacional e a política externa dos Estados Unidos, o que é uma infame mentira. 

Pela primeira vez estabelecem sanções secundárias, isto é, sanções que podem ser aplicadas contra qualquer pessoa, contra qualquer entidade, companhia, etc., que por realizar actos vinculados com Cuba, apesar que os seus interesses nos Estados Unidos, na economia estadunidense, não tenham relação alguma com o nosso país, significa um passo extremamente agressivo e inédito na aplicação extraterritorial do bloqueio contra a nossa pátria. 

Chama a atenção não apenas o texto da ordem executiva e a opacidade dela, que por exemplo diz que não se sentem obrigados a publicar quem são as pessoas ou as entidades designadas ou que seriam designadas nessa condição punitiva, precisamente para alargar o efeito de amedrontamento, de intimidação a todos os outros.

Mencionam como áreas de prioridade em matéria de ações contra Cuba, a área da energia, a área militar ou a defesa, os metais e a mineração, a segurança e as finanças. Porém, resulta significativo não apenas o texto da ordem, mas uma folha informativa distribuída ontem pelo governo dos Estados Unidos da América, que tem um aspeto curioso e ameaçador quando lista o que consideram os recentes e sucessivos sucessos militares dos Estados Unidos. A ordem o não refere, porém a folha informativa significa a reiteração da ameaça militar.

Cabe perguntar-se, que justificação poderia ter o governo da superpotência para um acto bárbaro, brutal, grosseiro e inculto? Quais desculpas poderiam ser escritas para provocar dezenas de mortes de jovens e combatentes cubanos e jovens estadunidenses, e provocar destruição e sofrimento? Qual seria a meta? O que aconteceria depois? Que impacto teria uma aventura militar dessa natureza na desestabilização da região, no dano às rotas comerciais e aéreas principais que abastecem o leste do território dos Estados Unidos? Acaso procurará assassinar centenas de milhares de cubanos, provocar a destruição do país? Pretenderá gerar uma situação de ingovernabilidade, miséria, doenças, calamidades imprevisíveis? Quem sairia beneficiado com um cenário como esse, que estamos certos de que não acontecerá porque Cuba tem a capacidade de preveni-lo, de impedi-lo e de defender com eficácia a sua independência, soberania e livre determinação socialista? 

Coloca em um grave dilema a toda a comunidade internacional. Face a esses actos nenhum Estado poderá agir de maneira soberana, independente, poderá exercer a soberania dos seus povos, poderá considerar que o único âmbito de aplicação no seu território são as suas leis nacionais, poderá defender o conceito de que apenas os seus tribunais ou cortes nacionais terão jurisdição sobre os seus próprios assuntos se não tomarem hoje partido em prol da justiça, a favor de Cuba. 

Os cubanos hoje comentamos preocupados o que acontecerá com o porta-aviões estadunidense a 90 metros das nossas costas. O mar das Caraíbas se encrespa quando tem porta-aviões. O que faremos com essa massa enorme de metal? Poderia ser convertido em um barco graneleiro, em um navio petroleiro para o comércio internacional? Hoje os cubanos comentam também que poderia ser um salão de baile.

Cuba age e agirá com responsabilidade. Se bem nos preparamos para qualquer eventualidade, inclusive para uma agressão militar direta, confiamos em que prevaleça o juízo e o sentido comum antes de iniciar uma aventura tão arriscada. 

Reitero, não existe justificação alguma para uma agressão contra o nosso país.

Cuba não ameaça ninguém. Cuba resiste também graças a vocês porque não está só. 

Cuba se defende, defende-se com as ideias e defender-se-á com as armas.

 

Muito obrigado. 

 

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