Senhor Presidente da Assembleia Geral:
Senhora Vice-Secretária-Geral:
Daqui a aproximadamente três horas, completar-se-ão exatamente 66 anos da frase do Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz, proferida em um discurso memorável nesta tribuna — e cito: “Desapareça a filosofia da espoliação, e terá desaparecido a filosofia da guerra! Desapareçam as colônias, desapareça a exploração dos países pelos monopólios, e então a humanidade terá alcançado uma verdadeira etapa de progresso!”.
No entanto, é alarmante o avanço do expansionismo, dos atos de usurpação e conquista, bem como da agressão militar e econômica. É absurda e inexequível a pretensão do governo dos Estados Unidos de impor a paz pela força. Pilares fundamentais do Direito Internacional e da Organização das Nações Unidas, como a igualdade soberana entre os Estados, estão sob ataque permanente.
O crime de genocídio do sionismo contra o povo palestino, os ataques de pirataria contra embarcações e as execuções extrajudiciais no Mar do Caribe e em zonas do Pacífico, a agressão militar contra a República Bolivariana da Venezuela e a guerra contra a República Islâmica do Irã são novas manifestações dessa atrocidade.
São também um reflexo da crise de identidade e relevância imposta à Organização das Nações Unidas, inclusive a esta Assembleia Geral — o órgão mais universal, democrático e representativo da comunidade internacional.
Estamos convencidos da necessidade indispensável de preservar e fortalecer a ONU, ao mesmo tempo em que a tornamos mais democrática, eficaz e próxima dos povos.
Em Cuba, como é sabido, enfrentamos uma agressão multidimensional do governo dos Estados Unidos, uma hostilidade permanente, abusiva e implacável que já dura quase sete décadas. Desde janeiro de 2026, essa situação se intensificou e tornou-se mais cruel e perigosa com o estabelecimento de um bloqueio energético que, por meio da intimidação e da coerção, proíbe todos os países de exportar combustíveis para Cuba — o que equivale a um bloqueio naval, tipificado no Direito Internacional como um ato de guerra.
Por meio de medidas sucessivas, o governo dos EUA vem impondo proibições a todos os países em relação a produtos e serviços que não podem ser exportados ou transportados para Cuba. Mais de 7 mil contêineres foram retidos em diversos portos, muitos deles contendo alimentos, medicamentos e dispositivos médicos, ou mesmo contratados por empresas privadas cubanas.
Em um fato insólito e sem precedentes, uma superpotência priva unilateralmente todos os Estados do direito de exportar o produto que desejarem para o país que desejarem, infringindo de forma integral e contínua a liberdade de comércio e navegação.
Somam-se a isso a intimidação de empresários de diversos países para que abandonem, contra a sua vontade, os seus investimentos e negócios em Cuba; os obstáculos e artifícios para impedir a chegada de carregamentos comerciais absolutamente legítimos; as pressões para impedir o fluxo de visitantes e turistas; e o esforço direcionado a limitar, tanto quanto possível, o acesso legítimo de Cuba a financiamentos, tecnologia e mercados.
Chega-se ao extremo de pressionar, a níveis inimagináveis, governos soberanos para que abram mão de serviços médicos que nos solicitaram — em benefício de suas respectivas populações e prestados com altruísmo por profissionais cubanos — simplesmente porque o governo dos EUA se opõe a tal cooperação, sem levar em conta o efeito ou o dano causado às populações que ficam privadas de assistência médica gratuita e de qualidade; ou seja, privadas de um direito humano fundamental. Na última quinta-feira, enquanto esta Assembleia Geral estava em sessão, o Departamento de Estado convocou uma reunião humilhante, especificamente com os Estados receptores, para exercer pressões e fazer ameaças.
Segundo descreve o Secretário de Estado, a política oficial dos Estados Unidos é fechar para Cuba qualquer válvula, saída ou fórmula de sobrevivência.
O impacto de um cerco tão férreo e implacável tem rosto humano. A guerra econômica é dirigida contra o povo. Recai sobre a população cubana em seu conjunto. Custa vidas, provoca dor individual e coletiva, gera angústias. Não é um “dano colateral”. É uma política deliberadamente concebida para ferir as famílias cubanas em seu ponto mais sensível, impedir o bem-estar e ferir a dignidade do povo.
É um ato de punição coletiva, crime também proscrito pelo Direito Internacional Humanitário. A meta evidente e imediata é induzir uma crise humanitária em Cuba, o que também constitui um crime.
O governo dos Estados Unidos e o Departamento de Estado tiveram de reconhecer o sofrimento infligido, mas têm a desfaçatez e o cinismo de insistir em culpar o governo de Cuba. O algoz culpa a vítima.
Seguem a fórmula definida pelo Departamento de Estado, desde 1960, no infame memorando Mallory, que estabeleceu como política oficial — até hoje — a derrubada do governo cubano mediante a asfixia econômica e o sofrimento extremo do povo devido a carências materiais, fome e desespero.
O Presidente dos Estados Unidos declarou, nesta tribuna, há poucos dias, que Cuba é um Estado fracassado. Se fosse esse o caso, por que então tiveram de estabelecer um bloqueio de combustível, por que impuseram sanções secundárias, por que precisam ameaçar, perseguir e pressionar todos os Estados do planeta? O Presidente dos Estados Unidos também reconheceu que seu governo impõe a Cuba a maior pressão já exercida. Meses antes, havia dito — e cito: "só resta entrar e destruir o lugar".
Persiste a ameaça do uso de força militar contra Cuba, conduta que constitui uma violação do Direito Internacional e uma grave infração à Carta de São Francisco.
Caso se concretizasse, constituiria um crime de grande magnitude. Provocaria mortes de cubanos e de jovens norte-americanos, além de enorme destruição. Esperamos que isso nunca ocorra. Cuba exerceria, com toda a sua determinação e energia, o legítimo direito de se defender. Essa agressão vem acompanhada de uma brutal guerra midiática e cognitiva, dirigida não apenas contra o povo cubano, mas também contra os cidadãos norte-americanos e a opinião pública mundial. Caracteriza-se por tentativas vulgares e descaradas de interferência nos assuntos internos de Cuba, o que constitui, igualmente, outro delito internacional.
Perguntam-nos o que os Estados Unidos buscam com essa conduta tão agressiva; é uma pergunta que costuma nos surpreender, pois os representantes desse governo declararam, sem qualquer inibição, seu objetivo de se apoderar de Cuba, de controlar o país, de dominar a economia — ou seja, de anular, por meio da agressão e da asfixia econômica, a soberania nacional pela qual gerações de cubanos lutaram desde o século XIX: primeiro para conquistá-la e, desde 1959, uma vez alcançada a liberdade plena, para defendê-la tenazmente diante dos maiores riscos, inclusive o de um holocausto.
O comportamento norte-americano baseia-se na falácia — declarada no início deste ano — de que Cuba constitui uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos; um disparate que esse governo repete descaradamente. Para tentar, em vão, fundamentar essa alegação, inunda os meios de comunicação com acusações mentirosas, por meio de seus porta-vozes e de publicações que contrata e paga, aproveitando-se do crescente domínio do governo dos Estados Unidos sobre as grandes plataformas de comunicação. O próprio presidente norte-americano repetiu tal falácia neste recinto, há poucos dias.
Qualquer observador minimamente informado compreende o caráter fantasioso e malicioso de apresentar uma nação em desenvolvimento como Cuba — relativamente pequena e com uma economia de desempenho modesto — como uma ameaça à maior potência nuclear, militar, tecnológica e econômica do planeta.
Esta Organização e os Estados-Membros dispõem de vasta evidência de que somos um país de paz, bem como dos esforços de Cuba em prol da cooperação internacional, do entendimento e da solução pacífica de controvérsias, e do papel ativo que sempre desempenhamos em apoio às Nações Unidas.
Cuba não é uma ameaça; o bloqueio, sim!
Cuba não é uma ameaça; o bloqueio, sim, é!
Sempre estivemos e continuamos dispostos ao diálogo com o governo dos Estados Unidos para tentar encontrar uma solução para as diferenças bilaterais com base na seriedade, no respeito, na igualdade soberana, na observância do direito internacional, sem ingerência nos assuntos internos nem pré-condições. Estamos abertos a relações comerciais e de negócios com empresas norte-americanas, assim como estamos com qualquer outro país.
Estamos cientes do imenso desafio que nossa nação enfrenta em relação à sua segurança, à sua sobrevivência, ao bem-estar do povo e ao destino da pátria. Não encaramos o desafio passivamente. Fazemo-lo com firmeza e dignidade.
Com base nisso, avançamos em um processo de mudanças — profundamente transformador do modelo econômico e social — ancorado em nossa experiência histórica.
No dia 30 de julho passado, durante o Sétimo Período de Sessões da Assembleia Nacional do Poder Popular, o presidente Miguel Díaz-Canel disse: “Diante do cenário complexo que descrevi, como persistir na construção do socialismo? Como encontrar os recursos financeiros e materiais para manter as conquistas sociais da Revolução? Assim como em etapas anteriores particularmente complexas — como o Período Especial, quando, sob a condução do Comandante-em-Chefe e, posteriormente, com a liderança do General de Exército, o modelo econômico foi transformado para adaptar-se às desafiadoras circunstâncias externas —, no contexto atual propusemo-nos a empreender as transformações exigidas pelo momento, sob a condução do Partido, de maneira colegiada e democrática, em consulta com o povo, sem comprometer a independência, a soberania nacional nem as conquistas sociais da Revolução”. Fim da citação.
Nessa sessão, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou um programa inovador, com novas práticas, atores e conceitos econômicos. Tudo isso é realizado dentro da Constituição vigente, aprovada em referendo livre e universal, e sob a concepção de nosso Estado socialista de direito e justiça social.
Como assinalou o líder da Revolução Cubana, General de Exército Raúl Castro Ruz, o mais importante — e cito — “será a implementação adequada e oportuna, com prioridades bem definidas e a participação consciente do povo”. Fim da citação.
Este processo baseia-se na força que soubemos construir, no potencial dos nossos recursos humanos e na determinação de responder às necessidades do povo com a maior justiça social possível, sem esmorecer no empenho de defender, da maneira mais absoluta e enérgica, a soberania e o direito à autodeterminação.
Sabemos que contamos com o apoio da comunidade internacional e com a solidariedade de milhões de pessoas, entre elas, cada vez mais cidadãos norte-americanos. Isso se manifesta nas reiteradas demonstrações e pronunciamentos de apoio a Cuba e de rejeição à agressão abusiva. Expressa-se na ajuda material solidária que o nosso povo recebe e que busca mitigar os enormes danos à economia e à sociedade cubanas.
Esse espírito de solidariedade e empatia manifesta-se também com especial força entre os cubanos que residem, de forma permanente ou temporária, fora do território nacional, e entre os seus descendentes — em particular, aqui nos Estados Unidos.
Senhor Presidente:
Rejeitamos a Doutrina Monroe e seus Corolários, assim como repudiamos qualquer tentativa de militarização, intervenção ou dominação imperialista na América Latina e no Caribe, região proclamada como Zona de Paz em 2014, precisamente em Havana.
Como pequeno Estado insular em desenvolvimento, solidarizamo-nos com nossos irmãos que compartilham condição semelhante e com seu alerta diante do avanço preocupante e inexorável das mudanças climáticas.
É necessário promover uma governança mais inclusiva das novas tecnologias de informação e telecomunicações, em particular das tecnologias disruptivas, como a inteligência artificial.
Rejeitamos a aplicação de medidas coercitivas unilaterais. Expressamos nosso apoio e solidariedade a todas e a cada uma das nações vítimas dessas medidas.
Ratificamos nossa solidariedade com o Governo de Reconciliação e Unidade Nacional da Nicarágua.
Reiteramos nosso apoio ao direito inalienável do povo de Porto Rico à autodeterminação e à independência.
As nações irmãs da África e do Caribe merecem um tratamento justo e diferenciado, bem como reparações pelos horrores do colonialismo e do tráfico transatlântico de escravizados.
Reafirmamos nossa solidariedade com o povo saaraui e seu direito à autodeterminação.
Ratificamos nosso apoio ao princípio de "Uma Só China".
Temos a convicção de que o rumo atual das relações internacionais — marcado pelo desrespeito ao Direito Internacional, pelo descaso com as Nações Unidas e pela imposição da vontade unilateral do mais poderoso sobre outros países, por meio da intimidação e da coerção — é perigoso e insustentável. A lei da selva não pode ser o futuro da humanidade.
Foi para impedir essas práticas, além de promover a paz e a justiça, que as gerações que nos antecederam fundaram as Nações Unidas e, ao longo de décadas, desenvolveram e buscaram enriquecer suas atividades. Recuperemos o seu papel, hoje que talvez ainda estejamos a tempo, antes que a Organização das Nações Unidas entre para a história como um sonho não realizado de grandes promessas.
No ano do seu centenário, confiemos, assim como Fidel Castro Ruz — líder histórico da Revolução Cubana —, que, se lutarmos com determinação, um mundo melhor será possível.
Pátria ou Morte!
Venceremos!
