1 - Essa será a 34ª resolução que Cuba apresenta na ONU pedindo o fim do embargo dos Estados Unidos contra o país. O governo cubano tem alguma esperança de que a resolução deste ano tenha algum efeito prático, já que elas não se tornam obrigações internacionais mesmo se forem aprovadas?
Nos dias 27 e 28 de outubro, será novamente discutido na Assembleia Geral das Nações Unidas o projeto de resolução apresentado por Cuba para condenar o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelo governo dos Estados Unidos contra Cuba. As decisões adotadas pela Assembleia Geral da ONU não são de cumprimento obrigatório, mas constituem uma evidência clara da vontade da imensa maioria dos Estados-membros das Nações Unidas de que se ponha fim a essa política fracassada e genocida. Cada votação simboliza uma vitória moral do povo cubano contra o opressor. Isso representa, na prática, que os Estados Unidos estão totalmente isolados.
2 - O governo de Cuba enxerga uma maior ou menor dificuldade em aprovar a resolução neste ano, tendo em vista o cenário desafiador e as mudanças geopolíticas que levaram diversos países para a zona de influência dos Estados Unidos?
As pressões que os EUA estão exercendo contra Estados soberanos são brutais. É uma violação da Carta das Nações Unidas usar a força ou ameaçar usá-la contra outro Estado. As manifestações de solidariedade com Cuba em todo o mundo se multiplicam. Não há motivo para considerar Cuba, um país agredido há mais de 60 anos, uma ameaça para a maior potência nuclear do mundo.Condenar o bloqueio contra Cuba não é uma questão de geopolítica. É uma questão de humanismo. É uma questão ética, de respeito à vida. O bloqueio contra Cuba significa punir todo um povo para privá-lo de sua independência. Hoje, pode ser Cuba. Amanhã, pode ser qualquer outra nação. Temos confiança de que a verdade prevalecerá mais uma vez. A imensa maioria dos Estados do mundo continuará votando contra o bloqueio, apesar das chantagens de Washington.
3 - Como o novo governo dos Estados Unidos agravou, ainda mais, a crise energética em Cuba?
O bloqueio energético imposto unilateralmente pelo governo dos Estados Unidos tem afetado gravemente a sociedade cubana. Trata-se de uma forma de punição coletiva. Desde janeiro de 2026, apenas um navio russo de petróleo bruto chegou a Cuba. O povo cubano sofre com apagões prolongados. Devido à falta de combustível, não é possível utilizar todo o potencial instalado para a geração de energia elétrica. O bloqueio energético coloca em risco os serviços básicos. A taxa de mortalidade infantil subiu de 4 para 9,9 por mil nascidos vivos.Há pronunciamentos dos procedimentos especiais do Conselho de Direitos Humanos que destacam que o uso de um bloqueio energético é incompatível com as normas internacionais de direitos humanos, uma vez que afeta direitos como a educação e a assistência médica, com ênfase especial nas crianças cubanas.
4 - O governo dos Estados Unidos alega que lideranças do governo de Cuba enriquecem às custas da população ao justificar as recentes sanções contra o país. Qual é o posicionamento do governo cubano sobre tais afirmações?
Falso. Uma narrativa falsa que pretendem impor para justificar o crime que cometem contra o povo cubano. A Revolução Cubana tem um longo histórico de compromisso social e humanismo. O governo dos Estados Unidos tem um longo histórico de agressões militares e assassinatos. Com que moral se atribuem o direito de ofender nossos líderes? O Departamento de Estado gosta de usar a mentira e o medo como armas para justificar suas políticas criminosas e expansionistas.
5 – Cuba recebeu mais algum carregamento de petróleo desde que o navio russo chegou com combustível na ilha em março?
Não. O único combustível que chega a Cuba é em pequena escala, por meio do setor privado, para consumo próprio. Mas, mesmo isso já apresenta problemas. Recentemente, foi divulgado que os EUA retiveram combustível no valor de 3 milhões de dólares de empresas privadas cubanas. A quantidade importada pelo setor privado não é suficiente para atender à demanda do país.
6 - Diante de tantas sanções econômicas, Havana e Washington mantêm algum tipo de negociação ou contato?
Cuba está sofrendo uma agressão multidimensional. Devemos deixar claro um aspecto: Cuba é o país agredido e os EUA são o agressor. O governo dos Estados Unidos conhece a disposição de Cuba para dialogar, para encontrar soluções e entendimento para nossos complexos problemas bilaterais. Além disso, sabe que não estamos dispostos a discutir nossos assuntos internos, nem nosso sistema político ou constitucional. A soberania não se discute. Caso se crie um contexto de avanço concreto para pôr fim à hostilidade, Cuba mantém a disposição para um diálogo sério e respeitoso.
7 - Cuba tem investido em painéis solares para driblar a crise energética, e conta com a ajuda da China. Outro país tem atuado ao lado de Havana nesse setor, incluindo cooperação tecnológica?
A transformação de nossa matriz energética continua avançando, apesar do reforço do bloqueio. Estamos trabalhando com a China, que tem sido um parceiro importante. Recebemos solidariedade concreta de diversos lugares. Já somos capazes de produzir 21,4% da energia a partir de fontes renováveis. Foram construídos 144 parques solares e estão em construção 22 parques eólicos.
8 - Quais países continuam enviando ajuda humanitária para Cuba? Qual foi a última vez que o Brasil enviou?
A solidariedade internacional não pode ser impedida. Recebemos ajuda material de várias partes do mundo. O Brasil enviou 42 toneladas de leite em pó há alguns meses. Há muitas pessoas no Brasil dispostas a ajudar nosso povo.
9 - Vocês estão acompanhando o processo eleitoral brasileiro? Temem que uma possível mudança de governo também signifique uma mudança na relação entre Brasil e Cuba?
O Brasil e Cuba são unidos por laços históricos de irmandade e amizade. O processo eleitoral brasileiro é uma questão que cabe exclusivamente aos brasileiros decidir.
10 - Trump já fez diversas ameaças sobre uma possível ação militar contra Cuba. O país está preparado para isso?
O povo cubano se prepara para enfrentar uma possível ação militar. A ameaça de uma agressão aumentou significativamente nos últimos meses. Somos um país pacífico, e não há justificativa para uma agressão militar contra Cuba. Agredir Cuba seria um ato irresponsável. Alguns meios de comunicação tratam com grande leveza um assunto tão sério quanto esse. Como afirmou o presidente cubano, não queremos guerra, mas, se formos atacados, estaremos preparados para defender o país com determinação.
11 - Como Cuba tem sobrevivido ao embargo econômico que já dura décadas?
Sobrevivemos ao bloqueio com união, com criatividade e com a firme convicção de que, sem o bloqueio, Cuba seria hoje um país com níveis de desenvolvimento inimagináveis. Continuaremos lutando contra o bloqueio e pela nossa soberania. Estamos certos de que venceremos.
